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Uma vida no mar

Um barco, um mastro para empinar a vela e uma garrafa de água. Isso basta para o velho Santiago viver bem. No mar, ele se sente completo. Na água, não sente que os peixes são seus inimigos, os adora e respeita. Não tem bem certeza se se trata de religião ou se a vida de pescador o ensinou assim, mas acredita que os animais marinhos são seus irmãos e tenta fazê-los sofrer o menos possível, mesmo quando precisa matá-los. Apesar da idade avançada, persiste na pescaria, única atividade que sabe – e que ama – fazer.

Santiago já foi casado, agora é viúvo. A única pessoa que o agrada ter por perto, principalmente quando está no mar, é o garoto Manolin. O velho o ensina a pescar, e ele o ajuda e faz companhia. Além do oceano, o velho e o garoto têm apenas mais uma paixão: o beisebol. Santiago ouve as notícias a respeito do esporte do rádio e conta a Manolin. Quando está prestes a desistir de pegar o maior peixe que já havia visto, o velho lembra-se do jogador DiMaggio, seu ídolo, e recupera sua vontade de continuar lutando.

O velho Santiago não costuma sucumbir. Mesmo quando passa 84 dias sem pescar nenhum peixe, retorna ao oceano no 85º dia, confiante que sua sorte voltaria.  Mesmo quando passa três dias no mar sem dormir, persiste em sua luta. Mesmo quando tubarões atacam seu barco, combate-os até o fim. Não perde a fé na natureza humana e na sua própria força, nem quando todas as circunstâncias apontam para sua derrota. É aí que se esconde sua grandeza. As rugas que marcam sua pele, as cicatrizes que machucam suas mãos, as roupas humildes, a expressão saudosista e o corpo envelhecido podem remeter à fraqueza, mas no mar sua coragem se revela. É lá que ele se sente confortável, e até mesmo poderoso.  E é para lá que ele retorna todos os dias de sua vida.

 

*Escrevi esse texto pra cadeira de Redação Jornalística. É sobre o personagem principal do livro O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. O objetivo era fazer o perfil de algum personagem literário.

De 1947 a 1953, o desenhista Anélio Latini Filho e sua equipe passaram das 8h da manhã às 4h da madrugada diariamente produzindo cerca de 500 mil desenhos. Todo este trabalho foi o necessário para realizar Sinfonia Amazônica, o primeiro longa-metragem brasileiro de animação. O filme, inspirado em Fantasia, da Disney, reunia sete lendas amazônicas, e marcou o início da história das animações no Brasil.

De lá pra cá, mais 19 longas foram produzidos no país. Em 2003 foi criada a Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), com o objetivo de incentivar, apoiar e reunir os animadores brasileiros. Para Marta Machado, presidente da Associação, “há um grande interesse em produzir longas, e considerando as nossas condições culturais, o número já existente é bastante alto”. Além disso, as tecnologias digitais facilitaram o trabalho dos profissionais do ramo, visto que o equipamento se tornou mais acessível. No entanto, a indústria norte-americana ainda mantém o monopólio das produções do gênero. Para Otto Guerra, um dos principais animadores brasileiros, “os americanos acharam uma fórmula há muitos anos, e isso é mérito deles. Nós não termos feito o mesmo foi falha nossa, mas isso vai mudar em breve”.

A maior atenção da indústria ainda é voltada para a publicidade, devido à fácil comercialização e produção. Contudo, conquistas como a primeira série animada de televisão feita no Brasil, o Peixonauta, que obteve sucesso no mercado internacional, abriram muitas portas para o crescimento do ramo. De acordo com Otto, “o problema é que a televisão e o cinema têm um confronto histórico, e enquanto isso acontecer a TV que comanda, logo é muito mais barato importar do que comprar daqui”. Isso também prejudica a indústria no sentido do reconhecimento pelo público, que é levado a subestimá-la devido à ausência de animações brasileiras na televisão.

Para os que sonham em seguir a carreira da animação, há boas e más notícias. A produção é bastante demorada – demora no mínimo de dois a três anos para se completar um longa – e dificilmente o mercado brasileiro atingirá grandes proporções no âmbito mundial. “Eu não sou sonhadora a ponto de pensar que dominaremos o mundo, mas se conseguirmos dominar a nossa própria TV, já vai estar de bom tamanho”, diz Marta. Otto, que está produzindo seu terceiro longa-metragem, garante que o trabalho vale à pena. Seu segundo filme, Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll, ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais. Para ele, ter perseguido o seu sonho de infância foi recompensador: “minha mãe sempre me perguntava se eu tinha certeza de que era isso que eu queria. Mas quando eu comecei a ganhar dinheiro, era virou uma grande fã” brinca ele a respeito da falta de valorização ainda presente.

A ABCA já tomou iniciativas para mudar este cenário. É o caso das comemorações do Dia Internacional da Animação, 28 de outubro, realizadas em cerca de 400 cidades de todo o país, nas quais são exibidos principalmente curtas-metragens brasileiros. “Ano passado, já vimos bons resultados. Esperamos que este ano a repercussão seja ainda maior”, torce Marta.

*Matéria publicada na edição de Julho do Jornal Hipertexto

Porto Alegre ainda apresenta desnível em calçadas e falta transporte para as pessoas com dificuldade de locomoção

 

por João Henrique Willrich e Débora Fogliatto

 

Calçadas em estado precário, ônibus sem suporte para cadeirantes. Esses são alguns dos problemas de longa data da cidade de Porto Alegre quando o assunto é infraestrutura. Antigas questões persistem e causam transtorno para as pessoas com deficiência. Estimativas indicam que em torno de 25 milhões de pessoas no País possuem algum tipo de necessidade especial.

No Rio Grande do Sul, esse número chega a quase 200 mil. Apesar de Porto Alegre ser das capitais uma das que melhor atende necessidades dos deficientes, as reclamações continuam. O jornalista Gustavo Trevisi do Nascimento, 36 anos, teve paralisia cerebral, o que resultou em limitações motoras. Para se locomover no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre, onde mora, ele encontra dificuldades. Como não consegue levantar muito os pés, acaba tropeçando em buracos e falhas nas calçadas. Ao atravessar a rua, precisa utilizar rampas, devido à altura dos meio-fios. Quando estas não existem, ele demora e até mesmo cai tentando alcançar o outro lado. Raízes altas, mudanças de piso, revestimentos irregulares também o atrapalham e já ocasionaram diversos deslizes e quedas. “Preciso caminhar olhando constantemente para o chão, pois nunca sei quando haverá algum obstáculo em meu caminho”, queixa-se.

Gustavo expressa essas e outras críticas ao poder público em sua página na Internet, chamada Blog da Acessibilidade. “Poucas pessoas possuem a autonomia que eu tenho. Não apenas os deficientes sofrem com essa situação, mas também as pessoas idosas que enfrentam grande dificuldade de locomoção”, alerta Gustavo.

Outro cidadão que sofre devido aos mesmos problemas é João da Silva, 32 anos. A sua principal reclamação é a falta de ônibus coletivos com equipamento adequado ao ingresso de pessoas em cadeira de rodas. “Um cadeirante demora muito mais para se locomover pela cidade, pois os ônibus que possuem o suporte adequado são poucos frente a toda frota. Às vezes passam três ônibus que não podem nos receber, então acabamos nos atrasando”, lamenta João. Em Porto Alegre, apenas as principais linhas oferecem aporte para cadeirante.

Mas não é só na Capital gaúcha que estes problemas persistem. Mesmo apresentando lacunas nos serviços oferecidos aos deficientes, Porto Alegre é uma cidade modelo nesse âmbito. De acordo com a prefeitura do município, 27% da frota de ônibus está preparada para receber deficientes, enquanto a legislação cobra apenas 10%. As lotações, ainda esse ano, sairão de fábrica com adaptação para cadeirante.

Há projetos encaminhados para melhorar a área central de Porto Alegre. Cerca de 180 novos rebaixamentos de calçadas estão previstos na área. “Esses serão facilitadores para circulação e travessia de rua segura de todos os pedestres, em especial aqueles com deficiência e mobilidade reduzida”, afirma João de Toledo, arquiteto e urbanista da Secretaria Especial de Acessibilidade e Inclusão Social (Seacis). Está para ser votado na Câmara de Vereadores um projeto de lei chamado “Plano diretor de Acessibilidade”, criado pelo ex-prefeito José Fogaça. Essa lei viabilizará rotas acessíveis e caminhos sem obstáculos para qualquer cidadão.

No final do ano passado, Porto Alegre foi a primeira candidata a sede da Copa do Mundo de 2014 a assumir compromisso com a campanha de acessibilidade, promovida pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade). O projeto exige construções de acordo com o conceito de acessibilidade universal.

 

*Matéria publicada na edição de maio do jornal Hipertexto

            Se você ainda não assistiu a Quase Famosos (Almost Famous), corra até a locadora mais próxima. O filme, lançado em 2000, é até hoje um dos melhores que eu já vi. Eu e minhas colegas estamos fazendo um trabalho a respeito dele para a cadeira de Crítica da Mídia e, quanto mais tempo eu passo analisando-o, mais eu me apaixono por ele.

 

            O diretor Cameron Crowe conseguiu conciliar jornalismo, rock, amizade e amadurecimento de uma maneira inexplicável. O protagonista do filme, William Miller (Patrick Fugit), é uma representação do próprio diretor aos 15 anos. Assim como Miller, Crowe começou a escrever para a revista Rolling Stone muito jovem, e saiu em turnê com uma banda para realizar sua primeira grande reportagem, história contada no filme. Apesar de não explicitar essa relação entre o diretor e o personagem, o roteiro (também escrito por Crowe, pelo qual ele levou o Oscar) é carregado de uma sensibilidade em relação ao garoto, como se estivéssemos vendo os acontecimentos do seu ponto de vista.

            Além de mostrar o cotidiano da banda fictícia Stillwater em sua turnê no ano de 1973, o filme aborda os conflitos existentes entre os músicos e sua relação com William. Ao sair de sua vida monótona, na qual a única diversão era escutar vinis de rock e escrever sobre eles, e ingressar em uma viagem com seus ídolos, Will aprende muito mais do que como fazer uma boa matéria. Ele se apaixona, cria grandes amizades e conhece o mundo do rock’n’roll, que ele sempre admirara, mas do qual nunca havia participado de fato. Apesar de aconselhado por Lester Bangs (editor da revista Creem que acaba se tornando uma espécie de mentor para o garoto) a não se tornar amigo dos integrantes da banda, Will se deixa levar pelo entusiasmo, chegando a ser considerado parte da equipe pelos músicos.

           O filme manda uma mensagem sobre sinceridade, ingenuidade e aprendizado, todos representados na figura de Will, que realiza seus sonhos sem deixar de ser íntegro e idealista.

 

DICA: Após assistir a Quase Famosos – e, consequentemente, se apaixonar – aproveite para ver mais dois maravilhosos filmes de Cameron Crowe: Vanilla Sky (2001) e Elizabethtown(2005). E já acesse o site do diretor, que contém detalhes sobre os filmes, colunas feitas por Crowe para a Rolling Stone, sua biografia e livros.

 

Will (segundo à esquerda), as groupies e a banda Stillwater

Will (segundo à esquerda), as groupies e a banda Stillwater

Ex-moradores de rua contam histórias de vida e superação

 

por Carolina Beidacki, Débora Fogliatto, Júlia Rombaldi  e Natália Otto 

            A aparência do lugar é cinzenta, fria. Há guaritas com guardas uniformizados e uma segurança reforçada no portão. No momento em que se supera essa primeira impressão, no entanto, o Abrigo Marlene mostra sua verdadeira face, através do rosto de Cassandra. A moça, que tem 19 anos e a abençoada inocência de uma criança de cinco, nos recebe com um abraço e um “bem-vindas”. E o universo dos moradores de rua passa a fazer mais sentido. 

            O Abrigo Marlene, localizado na Av. Getúlio Vargas, 40, em Porto Alegre, é o lar provisório de aproximadamente cem pessoas, sendo oito famílias completas. Mantida pela prefeitura, a instituição tem o objetivo de “recuperar e reintegrar os ex-moradores de rua, prepará-los para voltar à sociedade e a suas famílias” – de acordo com Mauro Amaral, subgerente do abrigo. A entidade, que existe desde 1995, oferece atendimento médico, serviço social e terapias ocupacionais aos usuários, além de segurança e monitoramento. “Trata-se não de uma moradia permanente, mas de uma casa de passagem”, explica Mauro. “Eles ficam aqui tempo o suficiente para se reerguer. No geral, entre 90 e 120 dias”. 

            Os moradores de rua são marginalizados pelas camadas mais abastadas da sociedade, tidos como um fardo, mero objeto sujando a paisagem da cidade. Vistos de perto, no entanto, essas pessoas são uma fonte de experiência e afeto. Suas histórias de vida nos ensinam lições de fé, perseverança e coragem, e muitas delas são de fazer inveja ao cinema e à literatura. Eis aqui algumas delas. 

  

José Volnei, 52 e Kelly Soares, 23 

“Mas dona Kelly, a senhora faça o favor de me explicar o que eu tenho que fazer na segunda-feira”. E dona Kelly explica. Apesar da insistência dos moradores de chamarem-na de senhora, a assistente social é uma moça de não mais que 23 anos. Em uma sala espaçosa e decorada com temas infantis, ela se faz conselheira dos moradores do Abrigo Marlene: é a gestora de suas finanças, acompanha-os ao médico e a audiências jurídicas. E cabe a ela também orientar-nos em nossa reportagem. “Poucos profissionais mostram interesse pelos moradores do abrigo, na maioria das vezes são só pesquisadores. Acho importante essa iniciativa”, diz Kelly. 

            Encontramos José Volnei, 52, no escritório de Kelly, resolvendo assuntos referentes à sua aposentadoria. Seu José é um ícone do Abrigo Marlene: um chapéu panamá com listras brancas e vermelhas esconde os cabelos que sobreviveram à calvície, os óculos de sol que poderiam facilmente conter o emblema da Dolce&Gabanna cobrem um olho ferido, e o bigode aloirado e bem-feito circunda a boca que nos conta histórias e não poupa as lições de moral. “Vocês repararam que aqui todo mundo fuma? Coisa feia”, seu José nos diz, aproximando-se sem precisar ser convidado a falar. 

            Hoje ex-morador de rua, na juventude seu José chegou a trabalhar na Universidade de Santa Maria, cidade onde nasceu. Devido a uma enfermidade no olho direito, perdeu o emprego e entregou-se ao alcoolismo. “Minha vida mudou de uma hora para outra”, diz. “Eu estava lá em cima e de repente eu caí lá embaixo”. Mudou-se para Porto Alegre em busca de uma vida melhor, mas não encontrou nada além da rua. Através de conhecidos, chegou ao abrigo Marlene, onde está reconstruindo sua vida: “quero voltar aos amigos e à sociedade. Não gosto de ficar aqui não, é muito parado. Gosto é de trabalhar”. Ele pretende terminar o tratamento de seu olho, do qual se orgulha de nunca ter desistido, e comprar uma casa com o dinheiro da aposentadoria. “Aqui é só uma passagem”, conclui seu José. 

 

João Carlos Zanini, 55   

O que João Carlos Zanini conta é mais do que uma boa pauta para uma reportagem. É material para uma enciclopédia inteira. Ou antes: um livro beatnik, artigos sobre a ditadura militar e filmes com Selton Mello. João Carlos, 55, traz no corpo marcas de sua vida épica: uma mão enfaixada e um olho ferido. Na ficha policial, uma condenação por tráfico e formação de quadrilha, de acordo com os Artigos 12 e 14, que cita de cor. No sangue, sabem-se lá quantas toxinas. E na mente, anos de experiência que parece ávido por compartilhar. 

“E aí, vamos começar pelo LSD?” Assim inicia o relato de João Carlos. Durante a meia hora em que falou, manteve quem o ouvia em suspensa atenção. Ele enumera as antigas companheiras: heroína, cocaína, anfetamina, “da velha cannabis até o ecstasy”. Jack Kerouac e William Burroughs perdem. João foi paisagista, garçom na França e Inglaterra, jardineiro, técnico em informática, jornalista nanico, babalorixá e traficante internacional. Estudado, envolveu-se no tráfico e no crime organizado – cujas origens ele sabe nos mínimos detalhes – e, graças aos seus ofícios ilícitos, viajou o mundo inteiro. “O tráfico seduz muito, dá uma sensação de poder”, diz ele. Perto de João Carlos, João Estrela é um mero amador. 

Nem a cadeia pôs fim às aventuras de João Carlos. Na década de 70, cumpriu pena ao lado de Flávio Alcaraz Gomes, renomado jornalista acusado de homicídio, com quem colaborou na realização de um jornal. A Voz do Cárcere foi um tablóide mensal que tratava dos direitos humanos, patrocinado pela Zero Hora e enviado principalmente às sedes da OAB de todo o país. E, com sua experiência improvisada no jornalismo, aconselha as repórteres que o entrevistam: “não se esqueçam, a persistência é 90% do objetivo”. 

“Na rua existe muita gente estudada, com curso superior, que perde tudo por causa do álcool”, diz João, ele próprio uma vítima do alcoolismo. “Eu mesmo chutei o pau da barraca e fui parar na rua”. Com parte da família em Toronto, Canadá, e um irmão advogado, da vida antiga de João Carlos sobrou apenas sua inteligência. “O João é o mais culto do abrigo. Passa muito tempo na biblioteca. Sempre perguntamos para ele alguma coisa, ou pedimos para que ele leia pra gente”, diz Camila Vieira, 22 anos, residente do Abrigo Marlene e amiga de João. 

A história de João Carlos mistura-se à História. Ou pelo menos assim ele faz parecer, quando relata mais a popularização do crack (“essa é a verdadeira droga do diabo! A cannabis é terapêutica perto da pedra”) do que sua própria experiência com a droga. Quando fala da prefeitura, do descaso dos políticos para com os moradores de rua, e não se inclui no grupo. Quando cita Castañeda, Paulo Coelho, Raul Seixas, Rasputin e Jô Soares, mas esquiva-se das perguntas mais pessoais. Uma vida só não é o suficiente para João Carlos Zanini. 

 

Antônio Milton da Costa Nazário, 51 e Davi, 33 

            Força de vontade é o que move Antônio Milton da Costa Nazário. E o que, de acordo com ele, diferencia aqueles que conseguirão melhorar de vida dos que ficarão para sempre estagnados. “Algumas pessoas não querem vencer, ficam acomodadas. Isso se torna um ciclo vicioso”, diz ele. Seu Antônio, 51, estudou e trabalhou na RBS e na Bandeirantes. Foi graças ao álcool que perdeu tudo e acabou nas ruas – onde viveu por quatro anos, suportando o frio e a fome, mas sem nunca pedir dinheiro. “Eu trabalhava, reciclava, fazia o que podia. Mas pedir, nunca. Não é para mim”. 

            O estudo e a classe da qual provém tornaram seu Antônio um verdadeiro crítico das ruas. Artigos poderiam ser escritos acerca de suas opiniões e experiências. “Algumas pessoas não conseguem se recuperar, são doentes ou sem família. Mas sem trabalho, não se consegue nada”, diz, categórico. Vítima do vício, fala que é difícil desvincular-se da droga. Admite que é uma ilusão. “Quando o efeito passa, tu acordas e pensa ‘o que eu fiz? ’ Mas tu não tens pra onde ir ou o que fazer, então começa tudo de novo”. 

            Não só as ruas e o vício fizeram a experiência de vida de Antônio. Ele, homem calmo e eloqüente, viveu por um ano no Abrigo Emanuel, na Restinga, curando-se do vício de crack e auxiliando os profissionais do lugar a lidar com os moradores, em sua maioria, deficientes mentais. “Perto daquelas pessoas, eu percebi que eu tinha tudo, e estava me matando. Resolvi mudar”. Um companheiro de rua lhe indicou o Abrigo Marlene, que o deu base e oportunidade para se reerguer. 

            Seu Antônio está no último mês no abrigo e tem sua vida organizada em metas. As próximas são alugar um lugar para morar e consertar sua arcada dentária, debilitada pela vida na rua. “Aqui (no abrigo Marlene) começa tudo de novo. Quero retornar para a sociedade e me reaproximar da minha família. Com esforço, é possível. Mas tem que querer”. 

            Nem todos pensam como seu Antônio. Há alguns moradores de rua aos quais falta a força de vontade para mudar de vida e caem no tal ciclo vicioso mencionado pelo sr. Nazário. Um exemplo é Davi, homem loiro de 33 anos, trejeitos agitados e respostas esquivas. Apesar de alegar que é difícil viver na rua, não parece se empenhar para mudar de situação. 

            “Meus pais se mudaram para Terra de Areia há mais de dez anos e eu não gostei de lá, então vim para Porto Alegre e fiquei na rua. No inverno, a gente tem que ir para os abrigos”, diz ele, despretensiosamente, enquanto enrola um cigarro. E discorre uma lista de abrigos para moradores de rua pelos quais já passou e pretende visitar novamente. “Quero ver se chego aos 40 anos”, diz, em uma brincadeira perto demais da realidade. 

 

Ilda dos Santos, 60 

            “Vocês vão me atender agora, ou mais tarde?”, nos pergunta Ilda dos Santos. Não, não é pretensão. É experiência. Contar a própria história já faz parte da vida de dona Ilda. Anos atrás, ela foi pauta de uma reportagem que veiculou por todos os abrigos da capital, com direito inclusive a um retrato em frente ao Abrigo Marlene: ela foi uma das primeiras moradoras do lugar. “Apesar de tudo que passei, gosto de desabafar. Me sinto mais leve contando o que passou”. 

            E o que passou não foi pouco. Nascida em Santa Maria, órfã de mãe, fugiu de uma vida de abusos aos sete anos de idade, escondida entre caixas de frutas na caçamba de um caminhão. Durante dois anos, foi criada por um casal de papeleiros. “Minha primeira casa foi a ponte”, conta. Foi embaixo da ponte que começou a usar drogas, aos 10 anos. Aos 13, engravidou pela primeira vez. Aos 15, foi violentada. Dona Ilda, hoje com 60 anos, já era adulta desde criança. “Eu vivia sozinha, trabalhava para me manter e manter o vício”. 

            O casamento também não lhe rendeu boas memórias. “Achei que a vida ia melhorar quando casei”, conta Ilda, explicando que se enganara com o marido. Maltratada, voltou para as ruas. Lavou roupa no Guaíba, dormiu sob as árvores da Rua da Praia, vendeu o corpo para sobreviver. Sofreu até encontrar o Abrigo Marlene, onde agora tenta reaver sua vida. Tem esperanças de conseguir comprar uma casa para viver com a filha, grávida de seis meses e também residente do abrigo. Pequenas conquistas significam tudo para dona Ilda: “consegui tirar o meu TRI, agora posso ir aonde eu quero sem depender de ninguém. A vida está melhorando”. 

            Ilda dos Santos é uma figura onírica. Sua voz é calma, e sua aparência é descansada. Não há rugas em seu rosto que denunciem as agruras de seu passado. Tão imponente é sua imagem, e tão comovente sua trajetória, que agora será eternizada nas páginas de um livro. “Semana que vem, uma moça vem aqui para eu narrar toda a minha vida. Vou virar um livro, mas não com meu nome. Só a história”. Além dessa grande realização, dona Ilda confessa seu maior sonho: quer aprender a ler e escrever, para que ela mesma possa contar em um diário sua própria história. 

Enquanto Ilda dos Santos não pode, nós humildemente o fazemos por ela.

 

Essa reportagem foi feita no nosso primeiro semestre, para a cadeira de Técnicas de Reportagem e Formas Narrativas. Apesar de estarmos recém começando (essa foi a primeira grande matéria que fizemos) e cometermos alguns errinhos amadores, significou muito para mim. Ir no Abrigo Marlene e conhecer essas pessoas realmente me mudou de diversas formas.

Verissimo

Duas semanas atrás, eu e meus colegas apresentamos um trabalho a respeito de um dos mais ilustres escritores e cronistas brasileiros, o  Luis Fernando Verissimo.

Ao pesquisar a vida e obra dele, eu não pude deixar de perceber cada vez mais a sua genialidade. Isso me chamou a atenção para o fato de que muitas vezes, quando começamos a aprender sobre algo ou alguém para uma reportagem, acabamos nos surpreendendo. Ano passado, na primeira grande reportagem que fizemos, eu e minhas amigas fomos até o Abrigo Marlene entrevistar alguns dos residentes, em sua maioria ex-moradores de rua procurando restruturar suas vidas. Isso me afetou de uma maneira incrível. Conheci pessoas que eram de classe média-alta e perderam tudo para o vício, homens com vivências que dariam um livro, mulheres que enfrentaram dificuldades que para mim só existiam na ficção. Foi um choque de realidade.

Me encantar com o mundo sobre o qual eu escrevo aconteceu muitas vezes novamente, em geral de maneira mais leve. E com o Verissimo não foi diferente.

Li diversos contos, crônicas, colunas, quadrinhos das Cobras, desenhos da Família Brasil e analisei o estilo do escritor. Percebi seu amor por comida, seu humor inteligente, sua linguagem que muitas vezes critica de maneira discreta. Ri com o suspense cômico do detetive Ed Mort, com o jeito gaudério do Analista de Bagé, com os otimismos da Velhinha de Taubaté, com os protestos de Dorinha. 

Mas nada do que eu escrever aqui – e nada do que eu escrever na vida, suspeito – vai transmitir tão bem o que eu quero dizer ou divertir tanto quem está lendo quanto trechos do próprio Verissimo.  Aproveitem:

 

Antes de mais nada, não obedeça a ordens. É comum o anfitrião sugerir, bem-humorado, alguma espécie de hierarquia no acesso ao buffet. Primeiro, as mesas deste lado ou daquele, primeiro os mais velhos, as autoridades, os mutilados de guerra, etc. Ignore-os. Seja o primeiro a saltar da mesa, mesmo fora de ordem. O máximo que pode acontecer é você receber olhares feios. O que importa isto diante de uma cascata de camarões ainda intocada e da oportunidade de escolher os melhores tomates? Nunca desmereça as vantagens de chegar primeiro.

                             O buffet, A Mesa Voadora, 1982

Porque a verdade é que tem muito paciente que acha que o umbigo dele é o centro do mundo, quando todo mundo sabe que é Bagé. Então o vivente ta com dinheiro na poupança, come todos os dias, tem uma amante chamada Suzete, e mesmo assim fica remoendo lá dentro, catando angústia como passarinho bicando bosta. Um bom joelhaço sacode as côsa e restabelece as prioridade. Afinal nestes tempos que estamos atravessando, meio de banda como Aero Willys em lodaçal, quem tem dinheiro para pagar uma análise devia se envergonhar de procurar um analista.

     Depoimento do Analista de Bagé, in A Velhinha de Taubaté, 1983

As Cobras eram publicadas no jornal Folha da Manhã

As Cobras eram publicadas no jornal Folha da Manhã

Ontem assisti a “Alice no País das Maravilhas”, do Tim Burton, em 3D. Nessa primeira semana desde a estreia, eu havia ouvido tantas opiniões diferentes, especialmente negativas, a respeito do filme, que fui ao cinema sem nem saber o que esperar. Já sabia que o diretor havia viajado bastante (o que não me surpreendeu) e que certas coisas haviam decepcionado os fãs da história original. Acabei encontrando um filme quase de ação, bem diferente do esperado pelo público em geral.

Mesmo assim, não considero o filme um absurdo ou uma aberração. Na verdade, há vários pontos positivos, a começar pelos maravilhosos vestidos que Alice desfila. As paisagens também são lindas e as criaturas bizarras de Underland (não Wonderland, como originalmente) são muito bem feitas. Os numerosos personagens não aparecem tanto quanto poderiam, o que dá a sensação de que alguns só passam para marcar presença. Mas algumas vezes isso é o suficiente, como acontece com Absolem, a lagarta dublada por Alan Rickman (O Snape de Harry Potter) que participa de duas ou três cenas e consegue demonstrar sua sabedoria, com uma pequena grande ajuda da poderosa voz do ator. O Gato, dublado por Stephen Fry, é misterioso, assustador e adorável ao mesmo tempo.  O Chapeleiro Maluco  interpretado por Johnny Depp é bastante emocional e amigável. Não deixa de ser uma criatura estranha, portanto cai muito bem para o ator, que parece ter uma queda por esse tipo de personagem. A cena em que ele, a Lebre e o Gato “tomam chá” com Alice é uma das melhores do filme, talvez pelos diálogos desconexos e lições de moral doidas passadas pelo Chapeleiro. Helena Bonham Carter incorpora a Rainha Vermelha, e sua cabeça gigante nem chega a parecer algo tão absurdo dentro da história. Anne Hathaway aparece pouco como Rainha Branca, personagem que eu na verdade não consegui entender muito bem. Ao mesmo tempo em que ela é “boazinha”, parece   não gostar tanto assim da pessoa que é forçada a ser. Há ainda os gêmeos gordinhos e atrapalhados Tweedledee e Tweedledum, a corajosa e meiga Dormouse e o Coelho Branco sempre com seu relógio. E Mia Wasikowska, até então praticamente desconhecida do grande público, acabou combinando bem com a protagonista.  Com seu rosto meigo, cabelos loiros e olhos escuros, ela passa uma certa curiosidade ingênua característica da Alice original.

Mas o filme – sempre é bom lembrar – não se propõe a ser uma refilmagem do desenho da Disney ou  uma releitura do livro de Lewis Carroll. É uma história nova, na qual Alice retorna ao País das Maravilhas 13 anos depois (embora não se recorde com precisão da primeira vez, que acredita ter sido um sonho) e encontra o lugar devastado pelo domínio da malévola Rainha Vermelha. A mensagem passada acaba sendo de que nada é impossível e todos são, no fundo, um pouco doidos.

No fim, o pior do filme é mesmo a música cantada por Avril Lavigne nos créditos. Soa como se não tivesse sido feita para a voz dela, que parece gritar o tempo todo. Por sorte, durante o filme a trilha sonora é instrumental, e ótima.

Mia Wasikowska como Alice, chegando no País das Maravilhas

Mia Wasikowska como Alice, chegando no País das Maravilhas