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Archive for the ‘Faculdade’ Category

Uma vida no mar

Um barco, um mastro para empinar a vela e uma garrafa de água. Isso basta para o velho Santiago viver bem. No mar, ele se sente completo. Na água, não sente que os peixes são seus inimigos, os adora e respeita. Não tem bem certeza se se trata de religião ou se a vida de pescador o ensinou assim, mas acredita que os animais marinhos são seus irmãos e tenta fazê-los sofrer o menos possível, mesmo quando precisa matá-los. Apesar da idade avançada, persiste na pescaria, única atividade que sabe – e que ama – fazer.

Santiago já foi casado, agora é viúvo. A única pessoa que o agrada ter por perto, principalmente quando está no mar, é o garoto Manolin. O velho o ensina a pescar, e ele o ajuda e faz companhia. Além do oceano, o velho e o garoto têm apenas mais uma paixão: o beisebol. Santiago ouve as notícias a respeito do esporte do rádio e conta a Manolin. Quando está prestes a desistir de pegar o maior peixe que já havia visto, o velho lembra-se do jogador DiMaggio, seu ídolo, e recupera sua vontade de continuar lutando.

O velho Santiago não costuma sucumbir. Mesmo quando passa 84 dias sem pescar nenhum peixe, retorna ao oceano no 85º dia, confiante que sua sorte voltaria.  Mesmo quando passa três dias no mar sem dormir, persiste em sua luta. Mesmo quando tubarões atacam seu barco, combate-os até o fim. Não perde a fé na natureza humana e na sua própria força, nem quando todas as circunstâncias apontam para sua derrota. É aí que se esconde sua grandeza. As rugas que marcam sua pele, as cicatrizes que machucam suas mãos, as roupas humildes, a expressão saudosista e o corpo envelhecido podem remeter à fraqueza, mas no mar sua coragem se revela. É lá que ele se sente confortável, e até mesmo poderoso.  E é para lá que ele retorna todos os dias de sua vida.

 

*Escrevi esse texto pra cadeira de Redação Jornalística. É sobre o personagem principal do livro O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. O objetivo era fazer o perfil de algum personagem literário.

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De 1947 a 1953, o desenhista Anélio Latini Filho e sua equipe passaram das 8h da manhã às 4h da madrugada diariamente produzindo cerca de 500 mil desenhos. Todo este trabalho foi o necessário para realizar Sinfonia Amazônica, o primeiro longa-metragem brasileiro de animação. O filme, inspirado em Fantasia, da Disney, reunia sete lendas amazônicas, e marcou o início da história das animações no Brasil.

De lá pra cá, mais 19 longas foram produzidos no país. Em 2003 foi criada a Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), com o objetivo de incentivar, apoiar e reunir os animadores brasileiros. Para Marta Machado, presidente da Associação, “há um grande interesse em produzir longas, e considerando as nossas condições culturais, o número já existente é bastante alto”. Além disso, as tecnologias digitais facilitaram o trabalho dos profissionais do ramo, visto que o equipamento se tornou mais acessível. No entanto, a indústria norte-americana ainda mantém o monopólio das produções do gênero. Para Otto Guerra, um dos principais animadores brasileiros, “os americanos acharam uma fórmula há muitos anos, e isso é mérito deles. Nós não termos feito o mesmo foi falha nossa, mas isso vai mudar em breve”.

A maior atenção da indústria ainda é voltada para a publicidade, devido à fácil comercialização e produção. Contudo, conquistas como a primeira série animada de televisão feita no Brasil, o Peixonauta, que obteve sucesso no mercado internacional, abriram muitas portas para o crescimento do ramo. De acordo com Otto, “o problema é que a televisão e o cinema têm um confronto histórico, e enquanto isso acontecer a TV que comanda, logo é muito mais barato importar do que comprar daqui”. Isso também prejudica a indústria no sentido do reconhecimento pelo público, que é levado a subestimá-la devido à ausência de animações brasileiras na televisão.

Para os que sonham em seguir a carreira da animação, há boas e más notícias. A produção é bastante demorada – demora no mínimo de dois a três anos para se completar um longa – e dificilmente o mercado brasileiro atingirá grandes proporções no âmbito mundial. “Eu não sou sonhadora a ponto de pensar que dominaremos o mundo, mas se conseguirmos dominar a nossa própria TV, já vai estar de bom tamanho”, diz Marta. Otto, que está produzindo seu terceiro longa-metragem, garante que o trabalho vale à pena. Seu segundo filme, Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll, ganhou diversos prêmios nacionais e internacionais. Para ele, ter perseguido o seu sonho de infância foi recompensador: “minha mãe sempre me perguntava se eu tinha certeza de que era isso que eu queria. Mas quando eu comecei a ganhar dinheiro, era virou uma grande fã” brinca ele a respeito da falta de valorização ainda presente.

A ABCA já tomou iniciativas para mudar este cenário. É o caso das comemorações do Dia Internacional da Animação, 28 de outubro, realizadas em cerca de 400 cidades de todo o país, nas quais são exibidos principalmente curtas-metragens brasileiros. “Ano passado, já vimos bons resultados. Esperamos que este ano a repercussão seja ainda maior”, torce Marta.

*Matéria publicada na edição de Julho do Jornal Hipertexto

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Porto Alegre ainda apresenta desnível em calçadas e falta transporte para as pessoas com dificuldade de locomoção

 

por João Henrique Willrich e Débora Fogliatto

 

Calçadas em estado precário, ônibus sem suporte para cadeirantes. Esses são alguns dos problemas de longa data da cidade de Porto Alegre quando o assunto é infraestrutura. Antigas questões persistem e causam transtorno para as pessoas com deficiência. Estimativas indicam que em torno de 25 milhões de pessoas no País possuem algum tipo de necessidade especial.

No Rio Grande do Sul, esse número chega a quase 200 mil. Apesar de Porto Alegre ser das capitais uma das que melhor atende necessidades dos deficientes, as reclamações continuam. O jornalista Gustavo Trevisi do Nascimento, 36 anos, teve paralisia cerebral, o que resultou em limitações motoras. Para se locomover no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre, onde mora, ele encontra dificuldades. Como não consegue levantar muito os pés, acaba tropeçando em buracos e falhas nas calçadas. Ao atravessar a rua, precisa utilizar rampas, devido à altura dos meio-fios. Quando estas não existem, ele demora e até mesmo cai tentando alcançar o outro lado. Raízes altas, mudanças de piso, revestimentos irregulares também o atrapalham e já ocasionaram diversos deslizes e quedas. “Preciso caminhar olhando constantemente para o chão, pois nunca sei quando haverá algum obstáculo em meu caminho”, queixa-se.

Gustavo expressa essas e outras críticas ao poder público em sua página na Internet, chamada Blog da Acessibilidade. “Poucas pessoas possuem a autonomia que eu tenho. Não apenas os deficientes sofrem com essa situação, mas também as pessoas idosas que enfrentam grande dificuldade de locomoção”, alerta Gustavo.

Outro cidadão que sofre devido aos mesmos problemas é João da Silva, 32 anos. A sua principal reclamação é a falta de ônibus coletivos com equipamento adequado ao ingresso de pessoas em cadeira de rodas. “Um cadeirante demora muito mais para se locomover pela cidade, pois os ônibus que possuem o suporte adequado são poucos frente a toda frota. Às vezes passam três ônibus que não podem nos receber, então acabamos nos atrasando”, lamenta João. Em Porto Alegre, apenas as principais linhas oferecem aporte para cadeirante.

Mas não é só na Capital gaúcha que estes problemas persistem. Mesmo apresentando lacunas nos serviços oferecidos aos deficientes, Porto Alegre é uma cidade modelo nesse âmbito. De acordo com a prefeitura do município, 27% da frota de ônibus está preparada para receber deficientes, enquanto a legislação cobra apenas 10%. As lotações, ainda esse ano, sairão de fábrica com adaptação para cadeirante.

Há projetos encaminhados para melhorar a área central de Porto Alegre. Cerca de 180 novos rebaixamentos de calçadas estão previstos na área. “Esses serão facilitadores para circulação e travessia de rua segura de todos os pedestres, em especial aqueles com deficiência e mobilidade reduzida”, afirma João de Toledo, arquiteto e urbanista da Secretaria Especial de Acessibilidade e Inclusão Social (Seacis). Está para ser votado na Câmara de Vereadores um projeto de lei chamado “Plano diretor de Acessibilidade”, criado pelo ex-prefeito José Fogaça. Essa lei viabilizará rotas acessíveis e caminhos sem obstáculos para qualquer cidadão.

No final do ano passado, Porto Alegre foi a primeira candidata a sede da Copa do Mundo de 2014 a assumir compromisso com a campanha de acessibilidade, promovida pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade). O projeto exige construções de acordo com o conceito de acessibilidade universal.

 

*Matéria publicada na edição de maio do jornal Hipertexto

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            Se você ainda não assistiu a Quase Famosos (Almost Famous), corra até a locadora mais próxima. O filme, lançado em 2000, é até hoje um dos melhores que eu já vi. Eu e minhas colegas estamos fazendo um trabalho a respeito dele para a cadeira de Crítica da Mídia e, quanto mais tempo eu passo analisando-o, mais eu me apaixono por ele.

 

            O diretor Cameron Crowe conseguiu conciliar jornalismo, rock, amizade e amadurecimento de uma maneira inexplicável. O protagonista do filme, William Miller (Patrick Fugit), é uma representação do próprio diretor aos 15 anos. Assim como Miller, Crowe começou a escrever para a revista Rolling Stone muito jovem, e saiu em turnê com uma banda para realizar sua primeira grande reportagem, história contada no filme. Apesar de não explicitar essa relação entre o diretor e o personagem, o roteiro (também escrito por Crowe, pelo qual ele levou o Oscar) é carregado de uma sensibilidade em relação ao garoto, como se estivéssemos vendo os acontecimentos do seu ponto de vista.

            Além de mostrar o cotidiano da banda fictícia Stillwater em sua turnê no ano de 1973, o filme aborda os conflitos existentes entre os músicos e sua relação com William. Ao sair de sua vida monótona, na qual a única diversão era escutar vinis de rock e escrever sobre eles, e ingressar em uma viagem com seus ídolos, Will aprende muito mais do que como fazer uma boa matéria. Ele se apaixona, cria grandes amizades e conhece o mundo do rock’n’roll, que ele sempre admirara, mas do qual nunca havia participado de fato. Apesar de aconselhado por Lester Bangs (editor da revista Creem que acaba se tornando uma espécie de mentor para o garoto) a não se tornar amigo dos integrantes da banda, Will se deixa levar pelo entusiasmo, chegando a ser considerado parte da equipe pelos músicos.

           O filme manda uma mensagem sobre sinceridade, ingenuidade e aprendizado, todos representados na figura de Will, que realiza seus sonhos sem deixar de ser íntegro e idealista.

 

DICA: Após assistir a Quase Famosos – e, consequentemente, se apaixonar – aproveite para ver mais dois maravilhosos filmes de Cameron Crowe: Vanilla Sky (2001) e Elizabethtown(2005). E já acesse o site do diretor, que contém detalhes sobre os filmes, colunas feitas por Crowe para a Rolling Stone, sua biografia e livros.

 

Will (segundo à esquerda), as groupies e a banda Stillwater

Will (segundo à esquerda), as groupies e a banda Stillwater

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Ex-moradores de rua contam histórias de vida e superação

 

por Carolina Beidacki, Débora Fogliatto, Júlia Rombaldi  e Natália Otto 

            A aparência do lugar é cinzenta, fria. Há guaritas com guardas uniformizados e uma segurança reforçada no portão. No momento em que se supera essa primeira impressão, no entanto, o Abrigo Marlene mostra sua verdadeira face, através do rosto de Cassandra. A moça, que tem 19 anos e a abençoada inocência de uma criança de cinco, nos recebe com um abraço e um “bem-vindas”. E o universo dos moradores de rua passa a fazer mais sentido. 

            O Abrigo Marlene, localizado na Av. Getúlio Vargas, 40, em Porto Alegre, é o lar provisório de aproximadamente cem pessoas, sendo oito famílias completas. Mantida pela prefeitura, a instituição tem o objetivo de “recuperar e reintegrar os ex-moradores de rua, prepará-los para voltar à sociedade e a suas famílias” – de acordo com Mauro Amaral, subgerente do abrigo. A entidade, que existe desde 1995, oferece atendimento médico, serviço social e terapias ocupacionais aos usuários, além de segurança e monitoramento. “Trata-se não de uma moradia permanente, mas de uma casa de passagem”, explica Mauro. “Eles ficam aqui tempo o suficiente para se reerguer. No geral, entre 90 e 120 dias”. 

            Os moradores de rua são marginalizados pelas camadas mais abastadas da sociedade, tidos como um fardo, mero objeto sujando a paisagem da cidade. Vistos de perto, no entanto, essas pessoas são uma fonte de experiência e afeto. Suas histórias de vida nos ensinam lições de fé, perseverança e coragem, e muitas delas são de fazer inveja ao cinema e à literatura. Eis aqui algumas delas. 

  

José Volnei, 52 e Kelly Soares, 23 

“Mas dona Kelly, a senhora faça o favor de me explicar o que eu tenho que fazer na segunda-feira”. E dona Kelly explica. Apesar da insistência dos moradores de chamarem-na de senhora, a assistente social é uma moça de não mais que 23 anos. Em uma sala espaçosa e decorada com temas infantis, ela se faz conselheira dos moradores do Abrigo Marlene: é a gestora de suas finanças, acompanha-os ao médico e a audiências jurídicas. E cabe a ela também orientar-nos em nossa reportagem. “Poucos profissionais mostram interesse pelos moradores do abrigo, na maioria das vezes são só pesquisadores. Acho importante essa iniciativa”, diz Kelly. 

            Encontramos José Volnei, 52, no escritório de Kelly, resolvendo assuntos referentes à sua aposentadoria. Seu José é um ícone do Abrigo Marlene: um chapéu panamá com listras brancas e vermelhas esconde os cabelos que sobreviveram à calvície, os óculos de sol que poderiam facilmente conter o emblema da Dolce&Gabanna cobrem um olho ferido, e o bigode aloirado e bem-feito circunda a boca que nos conta histórias e não poupa as lições de moral. “Vocês repararam que aqui todo mundo fuma? Coisa feia”, seu José nos diz, aproximando-se sem precisar ser convidado a falar. 

            Hoje ex-morador de rua, na juventude seu José chegou a trabalhar na Universidade de Santa Maria, cidade onde nasceu. Devido a uma enfermidade no olho direito, perdeu o emprego e entregou-se ao alcoolismo. “Minha vida mudou de uma hora para outra”, diz. “Eu estava lá em cima e de repente eu caí lá embaixo”. Mudou-se para Porto Alegre em busca de uma vida melhor, mas não encontrou nada além da rua. Através de conhecidos, chegou ao abrigo Marlene, onde está reconstruindo sua vida: “quero voltar aos amigos e à sociedade. Não gosto de ficar aqui não, é muito parado. Gosto é de trabalhar”. Ele pretende terminar o tratamento de seu olho, do qual se orgulha de nunca ter desistido, e comprar uma casa com o dinheiro da aposentadoria. “Aqui é só uma passagem”, conclui seu José. 

 

João Carlos Zanini, 55   

O que João Carlos Zanini conta é mais do que uma boa pauta para uma reportagem. É material para uma enciclopédia inteira. Ou antes: um livro beatnik, artigos sobre a ditadura militar e filmes com Selton Mello. João Carlos, 55, traz no corpo marcas de sua vida épica: uma mão enfaixada e um olho ferido. Na ficha policial, uma condenação por tráfico e formação de quadrilha, de acordo com os Artigos 12 e 14, que cita de cor. No sangue, sabem-se lá quantas toxinas. E na mente, anos de experiência que parece ávido por compartilhar. 

“E aí, vamos começar pelo LSD?” Assim inicia o relato de João Carlos. Durante a meia hora em que falou, manteve quem o ouvia em suspensa atenção. Ele enumera as antigas companheiras: heroína, cocaína, anfetamina, “da velha cannabis até o ecstasy”. Jack Kerouac e William Burroughs perdem. João foi paisagista, garçom na França e Inglaterra, jardineiro, técnico em informática, jornalista nanico, babalorixá e traficante internacional. Estudado, envolveu-se no tráfico e no crime organizado – cujas origens ele sabe nos mínimos detalhes – e, graças aos seus ofícios ilícitos, viajou o mundo inteiro. “O tráfico seduz muito, dá uma sensação de poder”, diz ele. Perto de João Carlos, João Estrela é um mero amador. 

Nem a cadeia pôs fim às aventuras de João Carlos. Na década de 70, cumpriu pena ao lado de Flávio Alcaraz Gomes, renomado jornalista acusado de homicídio, com quem colaborou na realização de um jornal. A Voz do Cárcere foi um tablóide mensal que tratava dos direitos humanos, patrocinado pela Zero Hora e enviado principalmente às sedes da OAB de todo o país. E, com sua experiência improvisada no jornalismo, aconselha as repórteres que o entrevistam: “não se esqueçam, a persistência é 90% do objetivo”. 

“Na rua existe muita gente estudada, com curso superior, que perde tudo por causa do álcool”, diz João, ele próprio uma vítima do alcoolismo. “Eu mesmo chutei o pau da barraca e fui parar na rua”. Com parte da família em Toronto, Canadá, e um irmão advogado, da vida antiga de João Carlos sobrou apenas sua inteligência. “O João é o mais culto do abrigo. Passa muito tempo na biblioteca. Sempre perguntamos para ele alguma coisa, ou pedimos para que ele leia pra gente”, diz Camila Vieira, 22 anos, residente do Abrigo Marlene e amiga de João. 

A história de João Carlos mistura-se à História. Ou pelo menos assim ele faz parecer, quando relata mais a popularização do crack (“essa é a verdadeira droga do diabo! A cannabis é terapêutica perto da pedra”) do que sua própria experiência com a droga. Quando fala da prefeitura, do descaso dos políticos para com os moradores de rua, e não se inclui no grupo. Quando cita Castañeda, Paulo Coelho, Raul Seixas, Rasputin e Jô Soares, mas esquiva-se das perguntas mais pessoais. Uma vida só não é o suficiente para João Carlos Zanini. 

 

Antônio Milton da Costa Nazário, 51 e Davi, 33 

            Força de vontade é o que move Antônio Milton da Costa Nazário. E o que, de acordo com ele, diferencia aqueles que conseguirão melhorar de vida dos que ficarão para sempre estagnados. “Algumas pessoas não querem vencer, ficam acomodadas. Isso se torna um ciclo vicioso”, diz ele. Seu Antônio, 51, estudou e trabalhou na RBS e na Bandeirantes. Foi graças ao álcool que perdeu tudo e acabou nas ruas – onde viveu por quatro anos, suportando o frio e a fome, mas sem nunca pedir dinheiro. “Eu trabalhava, reciclava, fazia o que podia. Mas pedir, nunca. Não é para mim”. 

            O estudo e a classe da qual provém tornaram seu Antônio um verdadeiro crítico das ruas. Artigos poderiam ser escritos acerca de suas opiniões e experiências. “Algumas pessoas não conseguem se recuperar, são doentes ou sem família. Mas sem trabalho, não se consegue nada”, diz, categórico. Vítima do vício, fala que é difícil desvincular-se da droga. Admite que é uma ilusão. “Quando o efeito passa, tu acordas e pensa ‘o que eu fiz? ’ Mas tu não tens pra onde ir ou o que fazer, então começa tudo de novo”. 

            Não só as ruas e o vício fizeram a experiência de vida de Antônio. Ele, homem calmo e eloqüente, viveu por um ano no Abrigo Emanuel, na Restinga, curando-se do vício de crack e auxiliando os profissionais do lugar a lidar com os moradores, em sua maioria, deficientes mentais. “Perto daquelas pessoas, eu percebi que eu tinha tudo, e estava me matando. Resolvi mudar”. Um companheiro de rua lhe indicou o Abrigo Marlene, que o deu base e oportunidade para se reerguer. 

            Seu Antônio está no último mês no abrigo e tem sua vida organizada em metas. As próximas são alugar um lugar para morar e consertar sua arcada dentária, debilitada pela vida na rua. “Aqui (no abrigo Marlene) começa tudo de novo. Quero retornar para a sociedade e me reaproximar da minha família. Com esforço, é possível. Mas tem que querer”. 

            Nem todos pensam como seu Antônio. Há alguns moradores de rua aos quais falta a força de vontade para mudar de vida e caem no tal ciclo vicioso mencionado pelo sr. Nazário. Um exemplo é Davi, homem loiro de 33 anos, trejeitos agitados e respostas esquivas. Apesar de alegar que é difícil viver na rua, não parece se empenhar para mudar de situação. 

            “Meus pais se mudaram para Terra de Areia há mais de dez anos e eu não gostei de lá, então vim para Porto Alegre e fiquei na rua. No inverno, a gente tem que ir para os abrigos”, diz ele, despretensiosamente, enquanto enrola um cigarro. E discorre uma lista de abrigos para moradores de rua pelos quais já passou e pretende visitar novamente. “Quero ver se chego aos 40 anos”, diz, em uma brincadeira perto demais da realidade. 

 

Ilda dos Santos, 60 

            “Vocês vão me atender agora, ou mais tarde?”, nos pergunta Ilda dos Santos. Não, não é pretensão. É experiência. Contar a própria história já faz parte da vida de dona Ilda. Anos atrás, ela foi pauta de uma reportagem que veiculou por todos os abrigos da capital, com direito inclusive a um retrato em frente ao Abrigo Marlene: ela foi uma das primeiras moradoras do lugar. “Apesar de tudo que passei, gosto de desabafar. Me sinto mais leve contando o que passou”. 

            E o que passou não foi pouco. Nascida em Santa Maria, órfã de mãe, fugiu de uma vida de abusos aos sete anos de idade, escondida entre caixas de frutas na caçamba de um caminhão. Durante dois anos, foi criada por um casal de papeleiros. “Minha primeira casa foi a ponte”, conta. Foi embaixo da ponte que começou a usar drogas, aos 10 anos. Aos 13, engravidou pela primeira vez. Aos 15, foi violentada. Dona Ilda, hoje com 60 anos, já era adulta desde criança. “Eu vivia sozinha, trabalhava para me manter e manter o vício”. 

            O casamento também não lhe rendeu boas memórias. “Achei que a vida ia melhorar quando casei”, conta Ilda, explicando que se enganara com o marido. Maltratada, voltou para as ruas. Lavou roupa no Guaíba, dormiu sob as árvores da Rua da Praia, vendeu o corpo para sobreviver. Sofreu até encontrar o Abrigo Marlene, onde agora tenta reaver sua vida. Tem esperanças de conseguir comprar uma casa para viver com a filha, grávida de seis meses e também residente do abrigo. Pequenas conquistas significam tudo para dona Ilda: “consegui tirar o meu TRI, agora posso ir aonde eu quero sem depender de ninguém. A vida está melhorando”. 

            Ilda dos Santos é uma figura onírica. Sua voz é calma, e sua aparência é descansada. Não há rugas em seu rosto que denunciem as agruras de seu passado. Tão imponente é sua imagem, e tão comovente sua trajetória, que agora será eternizada nas páginas de um livro. “Semana que vem, uma moça vem aqui para eu narrar toda a minha vida. Vou virar um livro, mas não com meu nome. Só a história”. Além dessa grande realização, dona Ilda confessa seu maior sonho: quer aprender a ler e escrever, para que ela mesma possa contar em um diário sua própria história. 

Enquanto Ilda dos Santos não pode, nós humildemente o fazemos por ela.

 

Essa reportagem foi feita no nosso primeiro semestre, para a cadeira de Técnicas de Reportagem e Formas Narrativas. Apesar de estarmos recém começando (essa foi a primeira grande matéria que fizemos) e cometermos alguns errinhos amadores, significou muito para mim. Ir no Abrigo Marlene e conhecer essas pessoas realmente me mudou de diversas formas.

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            Ao acordar, Alice adorna as almofadas atentamente. A amiga Antônia a acompanha, auxiliando-a. Ao acabarem, andam até a área aconchegante, acomodam-se; após, almoçam. Alimentam-se: aves, arroz, amêndoas. Ao acabar a alimentação, Alice assiste às aulas até anoitecer, antevendo a apresentação a Abdul, árabe apto a amá-la. Arfando, acha-o agradável, admirável, até amável. Acaba atraída, afirma a aprovação: astronauta, astrólogo, ateu. Adora ateliês, artista amador. “Até audição alta, audácia, autonomia, autossuficiência?” admira-se Alice, absorvendo abismada às autenticidades acentuadas.

          Após, Alice acampa acompanhando Antônia, aconselha-a a arrumar a armação aonde adormecerão. Admite à amiga a adoração ao árabe, adjetivando-o até acanhar-se. Ao andar, avistam animal abandonado; aproximam-se, acariciam-no, afeiçoam-se. Assim, adotam aquele adorável amigo, apelidado Alex. Adormecem abraçadas ao animal.

           Ao alvorecer, as amigas andam até achar albergue assombrado. A abertura antiga as assusta. Atravessam-na, atingindo a ala avarandada, achando aves assassinadas. Abismadas, apertam-se abaixo à abóboda azul, atingindo a área alumiada. Ainda aterrorizadas, andam até achar a abertura, aliviadas. Apressam-se até a armação. Adentrando-a, agarram-se a Alex, aconchegam-se, adormecendo.

          Amanhece, as amigas acordam, arrumam-se, agora aliviadas. Apressam-se até a aldeia, achando Abdul. Alice, ao avistá-lo, alegra-se, abraçando-o. Acompanham-se afetivamente até alvorecer. Alice admite ao árabe: ama-o avidamente.

 

*Texto engraçadinho que eu fiz para a aula de PAC II, em 2009/2. O objetivo era todas as palavras do texto começarem com a mesma letra (A, no caso)

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Projeto de Lei que torna crime a discriminação de homossexuais gera polêmica e divide opiniões de juristas e religiosos

 

por Débora Fogliatto, Juliana Palma e Natália Otto

   

  Na sala de cinema, o lanterninha toca de leve no ombro de um rapaz. Pede, educadamente, que ele e sua companhia se retirem do local. Eles são um casal e assistem ao filme como qualquer outro. O rapaz reluta. O lanterninha insiste. A platéia observa, no escuro, e não compreende. Quando, então, ambos se levantam e são iluminados pela tela, a cena fica clara: são dois homens. O casal se retira, mas não sem antes ameaçar processar o shopping.

 Quem conta é Leonardo Munhoz, 20 anos, o relato que ouviu de dois amigos. Nada incomum para o estudante de direito da Faculdade do Ministério Público, homossexual assumido desde os 18. “Acontece a toda hora”, conta ele. “As pessoas dizem que não têm preconceito contra os homossexuais, mas isso é irreal. É claro que têm. Se não tivessem, não haveria problema em duas pessoas que se amam manifestassem isso, assim como todas as outras”.

Há possibilidade de que cenas como estas se tornem menos freqüentes. Não por conscientização das pessoas, mas por força da lei. Está em fase de aprovação no Senado o Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que, semelhante à criminalização do racismo, torna crime a discriminação de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Caso aprovada, a lei certamente trará problemas para os estabelecimentos que, como os relatados por Munhoz, insistem em promover a exclusão social a partir da orientação sexual.

 

O PROJETO

No que consiste o Projeto de Lei da Câmara 122/2006                     

O projeto de Lei que está em fase de aprovação do Senado, o PLC 122/2006, tem gerado polêmica e suscitado discussões religiosas e políticas. O projeto consiste em um acréscimo na já existente lei que pune o racismo (Lei nº 7.716, de cinco de janeiro de 1989), para que essa também incorpore os crimes de homofobia. Ele foi apresentado para a Câmara pela deputada Iara Bernardi (PT/SP), em sete de agosto de 2001 e determina sanções às práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas. Em 2006, ele foi aprovado pela Câmara e chegou ao Senado. Com isso, o projeto espera para ser votado e, talvez, aprovado. Uma das mudanças seria no segundo artigo, que antes punia apenas os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, agora também inclui gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.

Com isso, seria crime, por exemplo, “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos”, de acordo com o Artigo nº 8. Este seria punido com uma pena de reclusão de dois a cinco anos. Esse artigo em particular tem gerado protestos por parte de religiosos, principalmente evangélicos, e conservadores. Eles alegam que essas medidas expropriam o cidadão “comum” de seus direitos à liberdade de expressão, de crença e de convicção política e filosófica. Já os defensores da aprovação da Lei, que não se constituem necessariamente dos próprios homossexuais, alegam que essa é uma tentativa de frear o preconceito e conferir igualdade e respeito a seres humanos que também os merecem. 

 

QUEM É CONTRA A APROVAÇÃO DA LEI

O que alegam os evangélicos, religiosos e conservadores

A maioria dos contrários à aprovação do projeto de lei 122/2006 alega motivos principalmente religiosos, ideológicos e políticos. De acordo com o Professor Uziel Santana, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), homens e mulheres heterossexuais podem vir a ter receio em se relacionar com homossexuais, pois tudo que se fizer ou falar pode ser interpretado como homofobia e sujeitará as pessoas a penas de prisão.”

Outro dos principais argumentos daqueles que pregam contra a aprovação da lei é o de que ela conferiria privilégios aos homossexuais, pois concederia a eles o direito de manifestar afetividade em público. Esse direito, no entanto, limita-se ao mesmo concedido a heterossexuais. Para Luiz Carlos Lodi da Cruz, Presidente do Pró-Vida de Anápolis, a demonstração de afeto entre homossexuais é “a prática pública de um ato obsceno” e ele declara que a aprovação da Lei acarretaria uma “perseguição religiosa sem precedentes em nosso país”. Para ele, é um absurdo que os homossexuais venham obtendo “indenizações por danos morais, pensão alimentícia após a morte do ‘companheiro’ e inclusive o direito de adotar crianças”. Lodi da Cruz acredita que quem é homossexual escolheu livremente essa opção, considerada por ele um “vício” e, portanto, deve arcar com as conseqüências de sua escolha. 

A “causa gay”, de acordo com os que a condenam, tem ganhado muito apoio do governo e dos meios de comunicação de massa, principalmente da televisão. O cinema, a literatura, o teatro, a música e até as universidades têm concedido propagandas dessa causa, conforme explica o procurador do Banco Central em Belo Horizonte, Paul Medeiros Krause. Em artigo publicado no Clube Jurídico do Brasil, ele afirma que todos os citados acima são redutos do esquerdismo e, ao defender os homossexuais, ajudam a destruir os valores da família brasileira. Ele alega que esse projeto de lei “significa a implantação do totalitarismo e do terrorismo ideológico de Estado, com manifesta violação dos direitos à igualdade, à livre manifestação do pensamento, à inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, a não-discriminação por motivos de crença religiosa, convicção filosófica e política”.

            De acordo com Krause, o marxismo ideológico, ao defender “de maneira frenética e desproporcional” as chamadas minorias, como negros, mulheres, índios e homossexuais, expropria discriminatoriamente os direitos dos demais. Ele faz uma comparação com a criação de cotas raciais para ingresso nas universidades, que confere direitos a uma parcela da população e exclui a outra. Os homossexuais, conclui ele, assim como as demais minorias, estão recebendo “superdireitos”, que privam a maioria de seu direito à igualdade.

 

A FAVOR DA GENERALIZAÇÃO

Estudantes de direito trabalham pela igualdade entre gêneros

O Serviço de Auxílio Jurídico Universitário da UFRGS conta com doze grupos, formados por estagiários voluntários e advogados, que se dividem entre os ramos do direito para advogar gratuitamente os que necessitam de auxílio. Um destes grupos é o do Direito da Mulher e do Gênero, também conhecido como Generalizando. Com slogans como todos somos Homo: Homo Sapiens, o grupo luta pela igualdade entre as orientações sexuais.

“Inicialmente, o grupo tratava apenas do Direito da Mulher, sendo o Direito do Gênero uma temática ainda recente”, conta a monitora Patrícia Becker, 21, estudante do segundo semestre de direito na UFRGS. Aberto todas as sextas à tarde, o grupo recebe, além de casos de violência contra as mulheres, relatos de discriminação e crimes de ódio contra homossexuais. “É com certeza um grupo marginalizado no Brasil. Infelizmente, o preconceito ainda está naturalizado em nossa sociedade, todos se sentem à vontade para fazerem piadas e outras discriminações”, diz a estudante. 

O grupo, que lida com um tema polêmico e ao qual, às vezes, não é dada a devida importância, é bem aceito no SAJU. No entanto, é difícil escapar de algumas brincadeiras de mal gosto. “Já houve um caso de preconceito, mas o resolvemos no pronto”, conta Patrícia. “Piadinhas também existem, mas levamos na esportiva. Tentamos fazer com que, a partir delas, as pessoas reflitam sobre seus atos”.

Sobre a lei da criminalização da homofobia, não há um consenso entre os futuros juristas. “Existem posições diversas, e prezamos muito por esta pluralidade. Uma delas, favorável a lei, entende que através dela haverá uma moralização e uma maior proteção contra a violência aos LGBT”, explica a monitora. “Outra, contrária a lei, entende que não é através da criminalização que a homofobia terá fim, pois não age na consciência dos cidadãos e tem apenas um efeito cosmético”.

Sobre a polêmica questão religiosa, Patrícia dá sua opinião: “acredito que a velha máxima de que ‘a nossa liberdade termina quando começa a do outro’ é sempre válida. Nesse sentido, penso que a liberdade de expressão religiosa não deve ferir a liberdade de expressão sexual”. A importância da discussão da homofobia e dos direitos do se reflete em grupos como o Generalizando, no qual os futuros advogados e juízes empenham-se em compreender e garantir os direitos do gênero. “Do ponto de vista legal, a situação ainda é de omissão. O sistema jurídico ainda é heteronormativo. É importante que haja uma reflexão aberta livre de preconceitos, então, para que possamos decidir os caminhos que tomará este ramo dos Direitos Humanos”, finaliza Patrícia. 

 

Reportagem feita para a cadeira de Texto em Jornalismo Gráfico, no 2º semestre de 2009.

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